A AUSÊNCIA DE NEGAÇÃO
DA VIDA NO CRISTIANISMO
Tendo
em vista o pensamento do filósofo Nietzsche no livro “Os Pensadores”, no
capítulo “Para a genealogia da moral”
(1887), o qual consiste em uma forte crítica a vida ascética como forma de
negar a vida terrena em prol de uma outra transcendental, o presente artigo
procura explicitar aspectos pertinentes oriundos do Cristianismo, visto que a
crítica do filósofo mencionado se refere aos seus seguidores diferenciando a
referida religião da forma como é pregada por muitos de seus adeptos e através de citações bíblicas, seu livro
fundamental procura mostrar que o Cristianismo não nega a vida, porém
interpretado erroneamente por alguns filósofos, pode ser fonte de negação vital
do homem.
A AFIRMAÇÃO DA VIDA
HUMANA NA VISÃO DE NIETZSCHE
Pela compreensão do
texto de Nietzsche (Para a Genealogia da Moral do livro Os pensadores 1887) é
possível extrair que a vida humana afirmada consiste na realização da vontade do
indivíduo de ser livre, de “dizer sim a si próprio e ser feliz” Nietzsche(1887,
p. 301). Ainda segundo esse filósofo, aqueles que se encontram nessas
circunstancia são chamados de bem nascidos.
“Os bem-nascidos”
sentiam-se como felizes, pois esses possuem “moral nobre”, Nietzsche (1887, p.
2) no sentido de serem senhores de si mesmos, de não reprimir suas reações como
fazem os “escravos”... os quais está vedado a reação propriamente dita, o ato e
que somente por uma vingança imaginária ficam quites.
Em
Para a Genealogia Moral o filósofo mencionado neste texto explicita que a vida
ascética, ou seja, devota a algum deus é uma negação da vida humana. Nesse
ponto a vida cristã também é criticada, por se tratar de uma devoção a Jesus.
Segunda Nietzsche a vida é considerada pelos “crentes” apenas uma passagem para
uma existência pós- morte, e por isso “sacrifícios” dos desejos naturais devem
ser exercidos, o que, para ele consiste em uma autocontradição, ou seja, uma
oposição do próprio homem aos desejos naturais a fim de tornar-se digno do
paraíso, conforme a frase:” Pois uma vida ascética é uma autocontradição”
Nietzsche (1887, p. 134).
O CRISTIANISMO
O
Cristianismo, cujo livro fundamentador é a bíblia, prega a existência de uma vida
após a morte, bem como a defesa de algumas atitudes sem as quais o homem
estaria ofendendo a Deus e perdendo o direito de entrar no paraíso. Algumas
dessas atitudes são: evitar a prostituição, roubo, mentira, inveja; amar a Deus
sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
A
pesar da preponderante preocupação com a existência da vida a pós a morte, bem
como com a prática de algumas ações já citadas anteriormente, a fim de
assegurar a entrada no paraíso, a presente religião não descarta as necessidades
e vontades humanas e até mesmo permite e incentiva a satisfação das mesmas
conforme está escrito no seguinte trecho bíblico:

E quanto ao homem, a quem Deus
deu riquezas e fazenda e lhe deu poder para delas comer, e tornar a sua porção,
e gozar do seu trabalho, isso é dom de Deus. Não é pois bom para o homem que
coma e beba e que a sua alma do bem do seu trabalho? Isso também eu vi vem da mão de Deus Goza a vida com a mulher que
amas, todos os dias de tua vida da tua vaidade. Provérbios de Salomão (195,
p.196-704)
Sendo
a Bíblia dividida em Antigo e Novo testamento, poder-se-ia dizer que o autor
mencionado anteriormente (Salomão), cujo livro encontra-se no antigo
testamento, nada tem a ver com a era de Cristo. Porém, em momento algum Cristo opõe-se às ideias
escritas em provérbios e, muito pelo contrário, sempre que se refere aos
escritos bíblicos anteriores a sua vinda a terra, confirma-os, conforme citados
a baixo:
Não cuideis que vim destruir a
Lei e os profetas; não ab-rogar, mas cumprir. Qualquer pois que violar um
destes menores mandamentos e assim ensinar aos homens será chamado o menor no
reino dos céus Mateus (Cp. 5, V. 17, p. 977) .
O
AMOR CRISTÃO COMO AFIRMAÇÃO DA VIDA
Por
isso quem amam ao próximo e a si mesmo procura fazer seus semelhantes felizes e
também ser feliz, isso não é negação da vida de outrem e da sua própria, mas da
existência de ambos. Por isso a preocupação de Jesus em João
10, 10
era:
Essas mensagens
deixadas na Bíblia mostram a preocupação com o aproveitamento da existência
humana, inclusive com a ausência de inquietações excessivas e estressantes com
roupa e comida, ressaltando a relevância da vida e do corpo em detrimento do
sustento e das vestes, respectivamente, o que significa deixar de lutar por
essas necessidades, mas evitar ansiedades prejudiciais à saúde.
A PSICOLOGIA E A BÍBLIA
É
de comum acordo entre as diversas abordagens psicológicas que quando o
indivíduo mascara grande parte de conteúdos conflituosos em seu interior é
provável que um intenso desconforto estabeleça-se dentro dele.
Nisso
o Cristianismo entra em pleno acordo com a psicologia, visto que está escrito
na Bíblia: “e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João c 8 v. 32).
Essa “liberdade” adquirida com a exposição da realidade pelo sujeito reafirma a
defesa do bem-estar psicológico humano, feita pela religião em apreço.
Retomando
o segundo tópico do presente texto, onde é relatado o pensamento de Nietzsche
sobre o ponto de vista de alguns cristãos em relação à vida, é possível afirmar
que, se os mesmos, ao considerar a existência como uma passagem para o
além-túmulo, condenam a livre expressão da vida com todos os seus direitos, os
quais foram mencionados no tópico 3.1, os mesmos cristãos estão bastante incoerentes
em relação a doutrina do Cristianismo já referida neste artigo.
Embora
a vida terrena seja sim, considerada uma passagem para a eternidade pelo
Cristianismo, ainda assim o direito do homem satisfaz seus anseios naturais é
respeitado e até incentivado, desde que isso não implique em ofensa ao próximo
e desobediência aos princípios verdadeiramente cristãos citados no tópico 3.
Portanto, o que está sendo dito é, em resumo um equivoco, pois a negação da
vida não está no Cristianismo, e sim na interpretação do mesmo por parte de
muitos.
Kézia Stéfani

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