quarta-feira, 14 de março de 2012


A AUSÊNCIA DE NEGAÇÃO DA VIDA NO CRISTIANISMO

Tendo em vista o pensamento do filósofo Nietzsche no livro “Os Pensadores”, no capítulo “Para a genealogia da moral” (1887), o qual consiste em uma forte crítica a vida ascética como forma de negar a vida terrena em prol de uma outra transcendental, o presente artigo procura explicitar aspectos pertinentes oriundos do Cristianismo, visto que a crítica do filósofo mencionado se refere aos seus seguidores diferenciando a referida religião da forma como é pregada por muitos de seus adeptos  e através de citações bíblicas, seu livro fundamental procura mostrar que o Cristianismo não nega a vida, porém interpretado erroneamente por alguns filósofos, pode ser fonte de negação vital do homem.

A AFIRMAÇÃO DA VIDA HUMANA NA VISÃO DE NIETZSCHE

Pela compreensão do texto de Nietzsche (Para a Genealogia da Moral do livro Os pensadores 1887) é possível extrair que a vida humana afirmada consiste na realização da vontade do indivíduo de ser livre, de “dizer sim a si próprio e ser feliz” Nietzsche(1887, p. 301). Ainda segundo esse filósofo, aqueles que se encontram nessas circunstancia são chamados de bem nascidos.
“Os bem-nascidos” sentiam-se como felizes, pois esses possuem “moral nobre”, Nietzsche (1887, p. 2) no sentido de serem senhores de si mesmos, de não reprimir suas reações como fazem os “escravos”... os quais está vedado a reação propriamente dita, o ato e que somente por uma vingança imaginária ficam quites.
 O PENSAMENTO DE NIETZSCHE SOBRE AS CRENÇAS

Em Para a Genealogia Moral o filósofo mencionado neste texto explicita que a vida ascética, ou seja, devota a algum deus é uma negação da vida humana. Nesse ponto a vida cristã também é criticada, por se tratar de uma devoção a Jesus. Segunda Nietzsche a vida é considerada pelos “crentes” apenas uma passagem para uma existência pós- morte, e por isso “sacrifícios” dos desejos naturais devem ser exercidos, o que, para ele consiste em uma autocontradição, ou seja, uma oposição do próprio homem aos desejos naturais a fim de tornar-se digno do paraíso, conforme a frase:” Pois uma vida ascética é uma autocontradição” Nietzsche (1887, p. 134).

O CRISTIANISMO

            O Cristianismo, cujo livro fundamentador é a bíblia, prega a existência de uma vida após a morte, bem como a defesa de algumas atitudes sem as quais o homem estaria ofendendo a Deus e perdendo o direito de entrar no paraíso. Algumas dessas atitudes são: evitar a prostituição, roubo, mentira, inveja; amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
            A pesar da preponderante preocupação com a existência da vida a pós a morte, bem como com a prática de algumas ações já citadas anteriormente, a fim de assegurar a entrada no paraíso, a presente religião não descarta as necessidades e vontades humanas e até mesmo permite e incentiva a satisfação das mesmas conforme está escrito no seguinte trecho bíblico:


E quanto ao homem, a quem Deus deu riquezas e fazenda e lhe deu poder para delas comer, e tornar a sua porção, e gozar do seu trabalho, isso é dom de Deus. Não é pois bom para o homem que coma e beba e que a sua alma do bem do seu trabalho? Isso também eu vi vem  da mão de Deus Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida da tua vaidade. Provérbios de Salomão (195, p.196-704)

           
Sendo a Bíblia dividida em Antigo e Novo testamento, poder-se-ia dizer que o autor mencionado anteriormente (Salomão), cujo livro encontra-se no antigo testamento, nada tem a ver com a era de Cristo. Porém, em  momento algum Cristo opõe-se às ideias escritas em provérbios e, muito pelo contrário, sempre que se refere aos escritos bíblicos anteriores a sua vinda a terra, confirma-os, conforme citados a baixo:

Não cuideis que vim destruir a Lei e os profetas; não ab-rogar, mas cumprir. Qualquer pois que violar um destes menores mandamentos e assim ensinar aos homens será chamado o menor no reino dos céus Mateus (Cp. 5, V. 17, p. 977) .

           Isso Mostra claramente que o Novo Testamento não consiste em uma anulação do Antigo, mas o seu cumprimento. Portanto, toda a Bíblia pode ser considerada como base para o Cristianismo.


O AMOR CRISTÃO COMO AFIRMAÇÃO DA VIDA

             Servindo ainda como confirmação do pensamento exposto no item anterior, Cristo afirma “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração e amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. Desses dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas Mateus (Mt 22:36 -40), ou seja, para cumprir os dez mandamentos do Antigo testamento, é preciso amar ao próximo como a si mesmo
            Por isso quem amam ao próximo e a si mesmo procura fazer seus semelhantes felizes e também ser feliz, isso não é negação da vida de outrem e da sua própria, mas da existência de ambos. Por isso a preocupação de Jesus em João 10, 10 era:





Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância  Não estejais apreensivos pela vossa vida, sobre o que comereis, nem pelo corpo sobre o que vestireis. Mas é vida do que o sustento, e o corpo, mais do que as vestes.


            Essas mensagens deixadas na Bíblia mostram a preocupação com o aproveitamento da existência humana, inclusive com a ausência de inquietações excessivas e estressantes com roupa e comida, ressaltando a relevância da vida e do corpo em detrimento do sustento e das vestes, respectivamente, o que significa deixar de lutar por essas necessidades, mas evitar ansiedades prejudiciais à saúde.

A PSICOLOGIA E A BÍBLIA

            É de comum acordo entre as diversas abordagens psicológicas que quando o indivíduo mascara grande parte de conteúdos conflituosos em seu interior é provável que um intenso desconforto estabeleça-se dentro dele.
            Nisso o Cristianismo entra em pleno acordo com a psicologia, visto que está escrito na Bíblia: “e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João c 8 v. 32). Essa “liberdade” adquirida com a exposição da realidade pelo sujeito reafirma a defesa do bem-estar psicológico humano, feita pela religião em apreço.
            Retomando o segundo tópico do presente texto, onde é relatado o pensamento de Nietzsche sobre o ponto de vista de alguns cristãos em relação à vida, é possível afirmar que, se os mesmos, ao considerar a existência como uma passagem para o além-túmulo, condenam a livre expressão da vida com todos os seus direitos, os quais foram mencionados no tópico 3.1, os mesmos cristãos estão bastante incoerentes em relação a doutrina do Cristianismo já referida neste artigo.
            Embora a vida terrena seja sim, considerada uma passagem para a eternidade pelo Cristianismo, ainda assim o direito do homem satisfaz seus anseios naturais é respeitado e até incentivado, desde que isso não implique em ofensa ao próximo e desobediência aos princípios verdadeiramente cristãos citados no tópico 3. Portanto, o que está sendo dito é, em resumo um equivoco, pois a negação da vida não está no Cristianismo, e sim na interpretação do mesmo por parte de muitos. 

Kézia Stéfani 

           

             



Nenhum comentário:

Postar um comentário