RELIGIOSAS DOS ALUNOS NO
CONTEXTO ESCOLAR
Religião,
de onde procede o termo religioso, segundo
Cury (2004, p.187), vem do verbo latino religare (re-ligare) – grifo do autor. Esse termo, conforme o autor
citado, tanto pode ser um novo liame entre um sujeito e um objeto, um sujeito e
outro sujeito, como também entre um objeto e outro objeto e, independentemente
da natureza da ligação, esse verbo supõe um momento originário sem a dualidade
sujeito/objeto ou um elo primário (ligar) – (grifo do autor) - que, uma vez
desfeito, admite uma nova ligação.Tendo
como base essa conceitualização é possível afirmar que essas três formas de
religação – sujeito e objeto, sujeito e sujeito, objeto e objeto – dão origem a
crenças diversas que podem ser interpretadas de forma bastante singular,
conforme Cury apud Oliveira, ( 2006, p. 5):
Para uns, a religião é um retorno ampliado a uma comunhão
cósmica e telúrica. Para outros, o surgimento da vida, o encantamento com o céu
estrelado e com a consciência interior de cada qual inspiram postular a
passagem do universo terreno ao universo da transcendência ou, em outros
termos, no encontro do outro com o
Outro. Esta passagem – para uns, uma questão de argumento lógico, para outros,
um salto na fé – significou o apareciemnto de múltiplas modalidades de expressar a religação do homem com o Transcendente. Ao mesmo tempo, tal
religação foi a oportunidade para que muitos também expressassem um
humanismo radical no âmbito
exclusivo da terrenalidade e da
temporalidade.
Essas
distintas representações da religião devem ser consideradas como fator importante
nas diferentes relações sociais do ser humano, tendo em vista que, conforme
Hugen apud Simões (2006 p. 26), a religião é um fator determinante da conduta
das pessoas.
Tendo
em vista as peculiaridades concernentes aos credos existentes na atualidade, é
relevante afirmar que o encontro com tal diversidade muitas vezes não tem sido
harmônico entre os indivíduos que os professam, tornando assim, cada vez mais
significativa a reivindicação do respeito a essas diferenças na sociedade, conforme
enfatiza Candau (2006, p. 2):
[...]O que é novo, hoje, é a ascenção de políticas de
identidade. Em contextos muito diferentes e de modos muito diversos – desde os
povos indígenas da América Latina às minorias religiosas na Ásia do Sul e às minorias étnicas nos bálcãns
e em África, até aos imigrantes na Europa Ocidental – as pessoas estão se
mobilizando de novo em torno das velhas injustiças segundo linhas étnicas,
religiosas, raciais e culturais, exigindo que sua identidade seja reconhecida,
apreciada e aceita pela sociedade mais
ampla. Sofrendo de discriminação e marginalização em relação a oportunidades
sociais, econômicas e políticas, também exigem justiça social.
Numa
sociedade que se diz plural, abarcando em espaços geográficos muito próximos
pessoas de diversas culturas, não deveriam existir preconceitos em relação a
essas divergêcias, entretanto, ao que parece, a maioria das pessoas não está
preparada para reconhecer o diferente e aceitá-lo como tal, como afirma Falcke
(2000, p. 10): “Na verdade, parece que se rejeita o que foge ao padrão esperado
socialmente ou às determinações do grupo em que se convive”. Tal rejeição foge
aos princípios estabelecidos há muitos anos pela Constituição Federal de 1988, a qual afirma em seu
artigo 50 os seguintes
incisos:
VI – é inviolável a liberdade de consciência
e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e
garantida, na forma de lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias; VII
– é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas
entidades civis e militares de internação coletiva; VIII – ninguém será privado
de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou
política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta
e recusar-se a cumprir perstação alternativa, fixada em lei.
Apesar
da lei acima exposta e de muitas outras mobilizações que já surgiram em prol da
valorização dos direitos dos indivíduos culturalmente excluídos, ainda é
evidente a necessidade de ampliar medidas contra o preconceito em relação às
diferenças aqui mencionadas.
Uma
dessas medidas pode ser a dedicação das instituições formadoras do ser humano –
família, escola, etc – às discussões e às
construções de práticas que viabilizem esse processo de respeito a todos os
indivíduos, independentemente de manifestações culturais e religiosas
divergentes.
A
relevância dessas ações pode ser compreendida através da afirmação de Eder (2006, p. 9): “quando ocorre uma colisão
entre reivindicações de identidades pode se imaginar idealmente dois
resultados: reconhecimento recíproco ou mútua aniquilação.” Ou seja, caso não
haja uma igualdade de direitos entre os diferentes, a humanidade caminhará para
a destruição de si mesma
A FORMAÇÃO RELIGIOSA DO INDIVÍDUO
E A IMPORTÂNCIA DO MEIO SOCIAL
É
comum afirmar que o ser humano é um ser cultural. No entanto, essa formação
cultural depende de uma ampla gama de relações sociais que o indivíduo
estabelece com o meio em que vive. Na compreensão de Ferreira (2006, p.280), a cultura corresponde
ao complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições, das
manifestações artísticas, intelectuais, etc., transmitidos coletivamente, e
típicos de uma sociedade.
Tal
conceito permite uma reflexão a respeito da relevância do convívio social para
o desenvolvimento dos mais variados comportamentos de um indivíduo, conforme o relato de Skinner (2003, p. 451):
O que o homem come e bebe, e como o faz, os tipos de
comportamento sexual em que se empenha, como constrói uma casa, ou desenha um
quadro, rema um barco, os assuntos sobre os quais fala ou cala, a música que
compõe, os tipos de relações pessoais que tem e os tipos que evita – tudo
depende em parte dos procedimentos do grupo de que é membro.
Essa
afirmação denuncia que muitas das características que definem um indivíduo não
podem ser consideradas isoladas do contexto sócio-cultural ao qual ele esteve e
ainda está sendo sujeito. Vygotsky, apud
Oliveira, M. K. (1955, p. 37) também concorda com a interferência do meio
social na formação do indivíduo quando diz que os grupos culturais nos quais as
crianças crescem e se desenvolvem produzem adultos que, por sua vez, também
irão atuar em conformidade com os modelos culturais que apreenderam.
Diante
dessas afirmativas, pode-se avaliar como é incalculável a dimensão dessa
influência social na vida de uma pessoa, pois,
a mesma cultura que constrói um indivíduo é a mesma que é reproduzida
por ele, fato esse que permite concordar com a seguinte afirmação de
Skinner (2003, p. 456): “Uma cultura,
então, em seu sentido mais amplo, é enormemente complexa e extraordinariamente
poderosa”.
Entre
as muitas manifestações culturais existentes é relevante enfocar, no contexto
da atual pesquisa, a significação que a religião imprime à vida do ser humano,
no sentido de que é através dela, ou da transcendência, conforme afirma Doff,
apud Oliveira, I. A. (2006, pgs. 4 e 5) que a relação do homem com Deus é
viabilizada.
De acordo com o credo adotado, no entanto, são propostas
explicações a respeito do mundo, da vida após a morte, sendo que, conforme Valério (2006, p. 5) esse fenômeno é
comum a todo sistema religioso.
Dessa
forma é possível entender que é com base nessas soluções e explicações
propostas nos credos religiosos que se
constroem os rituais, os agrupamentos de pessoas que compartilham da mesma fé e
outros importantes elementos norteadores da conduta do indivíduo devoto,
conforme ressalta Libânio apud Oliveira, I. A. (2006. pgs. 5 e 6): “ A crença em um ou vários poderes superiores faz com que o ser humano organize-se
em grupos e em instituições (templos/igrejas), crie
certos atos concretos, rituais e
símbolos, bem como regulamente os atos de sua vida”.
Este relato demonstra que,
embora a maioria das religiões cultive a crença em algo imaterial, sempre existe uma aplicação
da mesma ao contexto objetivo, o que pode ser observado na interação com outro
indivíduo, com objetos do ambiente
físico ou até com a natureza. Refletindo sobre esse aspecto é relevante
conhecer alguns sistemas religiosos citados por Valério (2006, pgs.15 e 16):
As religiões panteístas... são então o
resultado direto da Psicogênese Religiosa. A Intuição-Mística ao produzir a
Espiritualidade, resulta numa percepção
da subordinação da natureza à Causalidade, de modo que todos os eventos parecem
estar sob a influência ou mesmo
determinação do invisível. Todas as religiões monoteístas se baseiam...
em livros sagrados condensáveis em volume único, e este livro tem um peso
dogmático ao qual os textos politeístas não podem ser comparados... eles [...]
determinam como as pessoas devem se comportar de modo a obter a meta existência
ditosa. [...] As [...] ateístas... prescindem da ideia de deuses controladores do Universo, pois das
divindades que em geral reconhecem, nenhuma delas têm poder sobre a natureza
fundamental das coisas, nem criaram ou destruirão o Universo.
Essas colocações permitem compreender
que as diferentes religiões contribuem para a formação de indivíduos bastante
distintos em seu modo de pensar e conduzir-se sobre e com o meio circundante, o
que indica o quão complexas podem ser as relações estabelecidas entre eles.
A ESCOLA E O PROBLEMA DA ACEITAÇÃO DAS
DIFERENÇAS
De acordo com
ferreira, (2000, p. 281), a escola – instituição educacional enfocada no
presente trabalho - é um estabelecimento
público ou privado onde é ministrado o ensino
coletivo. tal definição remete a imagem de um agrupamento de pessoas que
estão expostas a um processo de aprendizagem construído sob condições
semelhantes, ao menos em termos de ambiente físico e quadro de funcionários.
para
uma melhor compreensão da importância dessa instituição é necessário mencionar
o papel da escola, o qual, segundo rego apud aquino (1998, p. 50), é assim definido: “a tarefa inerente e principal de toda estrutura educacional,
especialmente a escola, é a de promover o desenvolvimento e a aprendizagem do
ser humano nas diferentes dimensões: sociais, cognitivas, emocionais e motoras”
para
que esse desenvolvimento ocorra de forma saudável e significativa é necessário,
no entanto, que a escola disponha de um ambiente facilitador do processo de
aprendizagem, o qual inclui espaço
físico, materiais como carteira, livros, quadro, etc, e até mesmo as relações
entre os indivíduos inseridos nesse local.
é
exatamente esse o local no qual os pais
ou outros responsáveis depositam a confiança de que seus filhos obterão
conhecimentos que os qualifiquem para uma vida de qualidade, como afirma
rossini (2001, p. 44): “a família de hoje conta muito com a escola [...] na
formação das crianças e dos jovens”.
devido
à sobrecarga de trabalho, muitas vezes os pais não disponibilizam tempo suficiente para o processo educativo de
seus filhos e, assim, passam a atribuir à escola grande parte da
responsabilidade com relação à formação desses indivíduos.
no
entanto, é importante que os pais estejam atentos à ideologia professada, de forma implícita ou não, por essas
instituições educativas. paulo freire apud mizukami (1986, p. 96), manifesta um alerta com
relação a essa temática quando diz que essas instituições constituem um espaço
social no qual a educação formal é um subsistema de um sistema maior, sendo
necessário entender como o poder se
constitui na sociedade e a serviço de quem está atuando para compreendê-las de
fato.
ou
seja, muitas vezes a instituição que deveria promover a aprendizagem de todos
está, em contrapartida, atrelada aos interesses da classe dominante da
sociedade, pois como afirma marchesi (2006, p. 3), é difícil existir um sistema
educacional justo numa sociedade profundamente desigual.
diante
disso, surge uma contradição: o local escolhido para a construção da educação
formal de indivíduos com diferenças em termos físico, sócio-econômico, pátrio,
étnico, cultural, religioso, entre muitos outros, está servindo,
prioritariamente, apenas aos interesses
de uma parte dessa clientela.
é
necessário, então, que a escola não apenas conheça as discriminações atreladas
à conduta de seus profissionais e também de seus alunos, as quais
dificultam o relacionamento entre eles,
mas questione a fundamentação dessas
concepções e trabalhe em prol da construção de uma educação para todos, uma vez
que as diferenças coexistem e, de acordo com aquino (1998, p. 128), não podem
ser negadas.
aquino (1998, p. 107) também relata uma
ilustração que demonstra a necessidade de uma maior reflexão a respeito de
algumas divergências que podem se apresentar na realidade educacional:
Imagine o leitor dois adolescentes, alunos da 70
série de uma escola pública: Anne e Beto. Anne, filha de um casal de
israelitas. Beto só conhece a mãe, que veio do litoral baiano onde foi
abandonada pelo companheiro, os pais de Anne fazem questão de educá-la na
tradição e religião judaicas. Quanto ao Beto, acompanha a mãe nos rituais de
candomblé. Agora, dentro do horário escolar, soou o final do recreio e os
alunos estão subindo para as classes. Beto e Anne, contudo, não os acompanham:
devem dirigir-se para a biblioteca. É hora da aula de religião e eles não se
enquadram em nenhum dos dois grupos, o católico ou o evangélico. Assim,
passarão essa hora na biblioteca onde, talvez, possam ler a Constituição
Brasileira de 1988 que, em seu artigo 5, garante que ninguém pode sofrer
tratamento desigual por motivo de religião.
Embora este tema esteja sendo bastante enfocado
atualmente, é importante lembrar que isso não significa que o ideal da
aceitação das diferenças esteja sendo alcançado, pois, conforme Baibich (2006, p. 2) essa aceitação tem sido manifesta apenas
no nível teórico. Tal afirmação está melhor explicitada abaixo:
”Teoricamente,
estamos todos de acordo; sabemos como agir de forma politicamente correta” (grifo
do autor) quando perante a possibilidade de crítica e, na intimidade, exercer
todo nosso preconceito. Em nosso país, que é tido pelo imaginário mundial e por
si mesmo como um
paraíso de mesticaqem, a hipocrisia do não questionamento suficiente no que
tange às diferenças, que são muitas, tem permitido a manutenção e o agravamento
do silêncio que fala em favor do preconceito.
A não-pluralidade na educação é
apenas uma das formas de preservação do grande tapete da “democracia racial”
que esconde a falta de democracia real.”
Diante
dessa questão, é possível dizer que embora exista o conhecimento das
diferenças, o sistema educacional vigente ainda não desenvolveu as habilidades
necessárias para atuar democraticamente em relação a elas, conforme afirma
Patto (1997, p. 313): “Em outras palavras, embora os alunos sejam diferentes,
são avaliados pelo mesmo padrão, e são salientadas as qualidades, positivas ou
negativas, com relação a essa dimensão do comportamento”.
É urgente, portanto, a
necessidade de realizar uma educação para a democracia na escola, o que, de
acordo com Benevides apud Aquino (1998, p. 158), inclui: “enraizar hábitos de
tolerância diante do diferente ou divergente, assim como o aprendizado da
cooperação ativa e da subordinação do interesse pessoal ou de grupo ao
interesse geral, ao bem comum”( grifo
do autor).
Entre as muitas diversidades
existentes na sociedade atual, é fundamental considerar, para esta pesquisa,
aquelas concernentes ao aspecto religioso no interior da instituição
escola. Sendo esse o ambiente no qual
muitos indivíduos passam o maior tempo de suas vidas, é evidente que eles têm
vários comportamentos que revelam, de
uma forma ou de outra, suas posições a respeito de suas crenças.
Esse
fato é confirmado por Oliveira, I. A. (2006, p.2) quando diz que
“representações e manifestações de
religiosidade, seja por meio de sinais ou práticas religiosas, estão presentes
no cotidiano escolar, expressas pelos educandos em suas falas, em seus textos e
em seus desenhos e que demarcam a sua história de vida cultural”.
E é
por essa razão que a religião não pode ser ignorada nesse contexto, mas deve
ser enfocada, conforme afirma Marchesi (2006, p18), a partir de uma abordagem
sociológica e científica que permita uma maior compreensão dos valores,
crenças, costumes, rituais etc de um determinado grupo cultural. Dessa forma,
pode-se criar um espaço no qual alunos e professores de credos diferenciados
compartilhem informações a respeito do assunto, o que contribuirá para aumentar
o interresse pelo conhecimento que o outro pode oferecer e oportunizará o desenvolvimento da valorização
dos indivíduos implicados nesse processo.
Ao
invés de silenciar a respeito das religiões, sob a justificativa do famoso
jargão “religião não se discute”, deve haver na escola, conforme o autor citado
anteriormente, uma abertura para o diálogo sobre as diferentes religiões.
Isso
não significa, no entanto, tentar “converter” os indivíduos a um determinado
credo, mas sim, esclarecer as diferenças entre as crenças existentes na instituição
de ensino, propiciando um acréscimo aos conhecimentos culturais de todos os
envolvidos nesse processo de ensino-aprendizagem.
Um bom
exemplo de que essa iniciativa pode ser produtiva está no relato abaixo de
Bencini (2006,
p. 5) a respeito de uma iniciativa
pedagógica que reconheceu a importância dessa discussão sobre religião durante
a aula:
Dessa
forma é possível afirmar que entender a origem e a significação dos diversos
credos, bem como o grau de envolvimento dos indivíduos com suas respectivas
concepções religiosas contribui para a
melhor convivência com o diferente na escola.
A FORMAÇÃO DO PROFESSOR E A
SUA RELAÇÃO COM AS
DIFERENÇAS DO ALUNO
Dentre
as inúmeras condições que poderiam ser abordadas para enfocar as situações que
mais interferem na interação com o diferente, a relação professor-aluno
foi escolhida, devido
a relevância dessa interação para a construção de conhecimentos no
interior de uma instiuição escolar.
Muito
embora atualmente exista uma polêmica em torno da figura do professor e sua
possível substituição – ainda que parcial - por computadores, de uma forma
geral, ele ainda ocupa uma posição de destaque em sala de aula, sendo
considerado, conforme Simon (1998, p.
52), como alguém que “continua tendo uma grande centralidade no processo
educacional”. Isso mostra que ele exerce um controle bastante significativo
sobre a forma como o aluno percebe a disciplina ministrada, bem como sobre a
aprendizagem dos conteúdos ensinados.
A respeito
deste último aspecto — influência do sujeito que ensina na aprendizagem do
discente - Drouet (2002, p. 218) coloca:
Em 1964, nos Estados Unidos, Robert Rosenthal
e Lenore Jacobson fizeram uma pesquisa sobre o assunto. Avisaram aos
professores de primeiro grau que iriam aplicar um teste de QI nas crianças,
revelando alguns nomes bem-sucedidos e outros mal-sucedidos. Porém esses nomes
foram escolhidos ao acaso. Voltaram oito meses depois para ver os resultados.
Os alunos indicados como capazes tinham progredido mais do que os outros. Os
ditos incapazes não tiveram progresso algum. Ainda mais os professores
descreveram os primeiros como mais inteIigentes mais felizes e mais ajustados;
os ‘incapazes’ (grifo do autor) como pouco interessados, menos curiosos e
desajustados. Isso mostra que, depois de acreditarem em um resultado
absolutamente falso eles se incubiram, por seu comportamento em classe, de
fazer a ‘previsão’ (grifo do autor) dos pesquisadores dar certo.
Esse
relato demonstra que as expectativas do professor com relação ao aluno
interferem significativamente na forma como ele lida com este último. Muitas
vezes, o professor não conhece os motivos pelos quais ele, assim como muitos
outros indivíduos na sociedade, agem de forma discriminatória em relação a
algumas pessoas.
É, portanto, imprescindível um estudo a
respeito das representações que esse profissional possui em relação ao alunado
sob seus cuidados. De acordo com Rego apud Aquino (1998, p. 52), este campo
ainda constitui um universo pouco conhecido e, por isso, a autora chama a
atenção para a necessidade de investigá-lo:
Conhecer melhor a
realidade dos educadores significa também, no nosso entender, compreender seu pensamento, suas crenças, hipóteses,
concepções e princípios explicativos. Os professores têm conhecimentos e idéias
(baseados na sua experiência de vida como aluno e profissional) que, quando
revelados, podem oferecer interessantes perspectivas para a pesquisa
educacional assim como pistas e subsídios na busca de novos modos de ação junto
a eles.
Encarando a realidade
pedagógica dessa forma é possível fugir da atitude imediatista de atribuir a um
sujeito a culpa pelos insucessos educacionais. Mesmo diante da realidade de que
existem muitos profissionais que fracassam em sua missão de ensinar, não seria
justo atribuir-lhes a responsabilidade por esse resultado de forma direta, sem
antes analisar a formação que eles tiveram tanto profissional como
pessoalmente.
Falando
em desenvolvimento profissional, a autora citada acima, Rego apud Aquino (1998,
p. 52), denuncia a forma como acontece a formação deficitária do professor nas
academias de estudo:
Sabemos que na maior parte das
vezes a tradição vigente nos cursos de formação é justamente a de privilegiar a
transmissão de um grande volume de informações, normalmente desarticuladas
entre si, pouco significativas e até contraditórias com a pretensão de que no
futuro desempenho da profissão o professor consiga tomar decisões adequadas,
saiba justificá-las e dê conta de todas as variáveis que se entrelaçam nas
situações cotidianas de ensino-aprendizagem. Soma-se a isso a quase
inexistência de programas de formação em serviço, que deveriam garantir um
espaço permanente de reflexão da prática do professor, revelando a teoria que
está por trás de sua ação e o
seu processo de construção do conhecimento, abordando ainda, de forma crítica,
as relações e contribuições da teoria à prática pedagógica.
As
críticas apresentadas acima revelam que, muito embora a educação já tenha
alcançado muitos avanços, ainda permanecem nesses cursos algumas
características da abordagem tradicional do ensino, a qual preconiza como foco
da intervenção do educador a obtenção do conhecimento sem a consideração
da realidade da atividade docente, ou
seja, das limitações impostas pelas condições de trabalho e, especialmente,
pelo sujeito a quem se destina esse conhecimento.
Saviani
apud Mizukami(1986, p. 8) afirma que a abordagem tradicional do ensino
pressupõe que o papel do professor se caracteriza pela garantia de que o
conhecimento seja conseguido, independentemente do interesse e vontade do
aluno, o qual, por si só, talvez, nem pudesse manifestá-lo espontaneamente e,
sem o qual, suas oportunidades de participação social estariam reduzidas.
Diante
dos muitos problemas existentes nos
cursos realizados para o desenvolvimento
dos professores, problemas esses que estão diretamente ligados às dificuldades
que o corpo docente enfrenta na prática cotidiana, é relevante considerar um
dos principais desafios do educador atual: as diferenças do corpo discente.
As
diferenças podem ser étnicas, culturais, religiosas, etc, e, independentemente de sua natureza, exigem do
educador habilidades diversas para dispensar aos educandos um tratamento que
revele compreensão e respeito a essas idiossincrasias, sem, no entanto,
superestimar ou subestimar quaisquer características de determinados alunos em
detrimento de outras de alguns educandos.
Seria necessário fornecer a esses
profissionais uma orientação sobre a importância do conhecimento da realidade
do aluno, para, a partir dela, construir o processo de ensino. Esse fato é
confirmado por Leal ( 2006, p. 45) quando diz:
Mas se um
professor; dentro da sala de aula, tiver consciência da história de vida do seu
aluno e puder tratá-lo como um sujeito único, capaz de aprender, certamente
terá mais possibiildade de auxiliá-lo a encontrar sua própria forma de
assimilar o conhecimento.
A citação exposta anteriormente, a
qual continha o pensamento de Rego apud Aquino (1998, p. 52) sobre o conhecimento da realidade do
professor, viria também a calhar se fosse dita de forma inversa, ou seja,
conhecer a realidade do aluno implica também entrar em contato com as suas
diferentes opiniões, preferências, crenças etc. A partir do momento em que o docente adquire
esse conhecimento é importante que ele não se limite apenas a isso, mas ainda
procure aceitar os alunos com as diversidades com as quais se apresentam,
ajudando-os, assim, a desenvolverem a aceitação deles próprios.
A PERCEPÇÃO DO PROFESSOR
No contexto aqui enfocado, é relevante
considerar que as atitudes do profissional em questão para com os educandos é
bastante influenciada pelas representações ou
percepções que ele foi construindo a respeito das diferenças dos outros
seres humanos ao seu redor.
Este
fator — percepção – parece contribuir de forma significativa para a dificuldade
ou facilidade do professor em aceitar as diferenças no contexto escolar, visto
que, no ato de perceber, de acordo com Braghirolli et all (2001, p.75), ocorre uma seleção de aspectos do meio
ambiente, pois não são todos os estímulos desse meio percebidos simultaneamente
pela mesma pessoa. A mesma autora ainda acrescenta: “O estado psicológico de quem percebe é um fator determinante da
percepção, seus motivos, emoções e expectativas fazem com que perceba,
preferencialmente, certos estímulos do meio.”
Conforme
visto no primeiro capítulo deste trabalho, tais concepções são construídas
sócio-culturalmente, ou seja, o ambiente físico e social ao qual o indivíduo
esteve sujeito durante a sua vida desencadeou tal seleção de estímulos do meio.
A forma como o ser humano se posiciona diante de
determinadas situações, ou seja, o que ele sente, pensa etc, frente aos
estímulos que recebe, depende, conforme Moreira e Medeiros (2007, p. 29),
da história de aprendizagem desse
sujeito. O que o autor quer dizer é: não nascemos com esses medos, mas eles
foram construídos. Tal como a aprendizagem desses medos, a rejeição a
determinados costumes, a comportamentos
de algumas pessoas, a crenças, etc,
também são aprendidos.
Piletti
(2001, p. 82) acrescenta que agrado ou
desagrado dependem da percepção que temos das pessoas e vão influir na forma do
nosso relacionamento com elas.
Com
base nessas informações é possível considerar o quanto a percepção das pessoas,
no caso em destaque, a percepção dos professores, pode interferir na sua
relação com o aluno e, consequentemente, no processo de aprendizagem deste
último. Corroborando com essa idéia Patto (1997, p. 313-314) afirma:
Evidentemente, o processo de percepção do professor não é
arbitrário, e o fato de muitos professores perceberem os mesmos alunos como
bons ou maus indica que não se trata de apreciação inteiramente deformada por
fatores pessoais (embora, em muitos casos específicos, tais fatores possam ser
predominantes). Apesar disso, há professores que conseguem obter um rendimento
muito maior, não apenas de um ou vários alunos, mas de todas ou quase todas as
suas classes. Aparentemente, tais professores conseguem perceber e estimular as qualidades positivas
de seus alunos, de tal forma que acabam por provocar a sua acentuação. De outro
lado, existem professores que, embora especificamente competentes em sua
disciplina, são incapazes de obter produção satisfatória. Essa diferença
poderia ser explicada como resultante de uma seleção perceptual (grifo do
autor) específica: alguns tendem a observar e salientar os aspectos positivos,
enquanto outros tendem a salientar os aspectos negativos das pessoas com que
estão em contato.
Com
base nessa afirmação da autora, considera-se fundamental para uma prática
docente de qualidade, a identificação das representações que podem beneficiar
ou prejudicar essa prática, buscando modificar aquelas que podem contribuir
para um relacionamento deficitário com o aluno e um consequente prejuízo da
construção de conhecimentos por parte deste último.
O PROFESSOR EM CONTATO COM AS
DIFERENÇAS RELIGIOSAS DOS ALUNOS
Marchesi (2006, p. 59) escrevendo
sobre o papel do professor na diminuição das discriminações no contexto
educacional, defende que a compensação
das desigualdades não é apenas responsabilidade da administração educacional,
nem das escolas concretas, mas sim de cada professor que pode também
desenvolver seu compromisso com a justiça através da forma como se dirige ao
aluno em sala de aula e diante de manifestações de diversos credos na
instituição que ensina.
Essa ênfase no papel do
professor na construção da cidadania de seus alunos pode ser justificada pela
colocação de Britto (1989, p. 102):
Quando nos referimos ao
desenvolvimento da práxis educativa, consideramos o professor como parte
essencial no relacionamento escolar. Suas atitudes, a linha filosófica pela
qual se orienta, a ideologia que professa, a corrente psicológica em que se apóia, todos esses elementos influenciam,
sobremaneira, o processo da educação.
Isso ocorre porque esse profissional é
a figura de autoridade que permanece mais diretamente ligada ao alunado na escola.
Apesar de não ser o único responsável pelo crescimento do aluno na instituição
aqui enfocada, é ele que transmite informações a respeito da disciplina que o
corpo discente necessita apreender para obter os diferentes graus escolares.Por
essa razão, é fundamental compreender a concepção que os professores possuem a
respeito das divergências religiosas dos alunos, considerando a grande
influência que esses educadores exercem na sala de aula. Sobre essa influência
Andrade (2006, p. 1) escreve:
Sabemos que um professor não
limita sua influência a conselhos técnicos, não é apenas guia do aluno através
do labirinto da sua própria existência. Graças à ação persuasiva de sua
presença deslinda as contradições íntimas: explica cada um a cada um, apontando
os rumos decisivos, O convívio do professor e do aluno, não depende
exclusivamente da qualidade de ensino, mas do encontro entre pessoas. Neste
diálogo franco, nesta interação professor-aluno, neste ‘encontro entre pessoa’
(grifo do autor) estão presentes os valores, os conceitos e preconceitos
observados em sua época.
Nesse encontro entre pessoas do qual o autor fala,
é fundamental que haja respeito em relação às diferenças pessoais de cada um
dos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem. Convém afirmar que é imprescindível
que o professor conheça suas percepções a respeito do educando – crenças,
valores, etc - podendo, a partir dessa consciência, trabalhar seus preconceitos
referentes a esses aspectos e, consequentemente, distinguir acertos e falhas no
lidar com o aluno, sabendo que estas últimas podem ser modificadas.
A
fim de analisar melhor essa questão, é relevante citar um estudo de Oliveira,
I. A. (2006, p. 10), realizado no
Espaço Educativo Populari, que desenvolve a alfabetização de pessoas jovens,
adultas e idosas em comunidades periféricas e hospitalares na cidade de Belém,
e em comunidades rurais ribeirinhas do Estado do Pará. Alguns dados dessa
pesquisa, segundo Oliveira, I. A. (2006, p.
10) serão descritos abaixo:
Em relação à
religiosidade na prática pedagógica, todos os educadores entrevistados
afirmaram não utilizar a religiosidade como tema gerador nem como matéria de
conhecimento. Mas, pelo fato de ser expressa pelos educandos durante o
desenvolvimento das aulas, acaba interferindo no seu planejamento e na
realização de suas atividades didáticas preparadas e trabalhadas no ambiente
educativo.
É
interessante notar dois aspectos dessa citação: a inexistência da inclusão da
religião no conteúdo programático e a necessidade de um rearranjo das atividades a serem realizadas
durante as aulas devido à demanda religiosa do alunado.
A
religião é um tema que, apesar de polêmico, carece de uma atenção especial por
parte dos educadores, uma vez que as manifestações religiosas também são um fenômeno
passível de estudo e as instituições de ensino, enquanto propiciadoras da
construção de conhecimentos não podem se abster dessa tarefa. Já com relação à
reprogramação das atividades docentes devido ao interesse religioso dos alunos,
é importante colocar que essa atitude é bastante enriquecedora para o processo
educativo, uma vez que valoriza as necessidades de conhecimento dos alunos,
favorecendo a construção de uma aprendizagem significativa para
eles.Entretanto, é relevante ainda mencionar os seguintes relatos também
referentes ao estudo apontado
anteriormente, segundo Oliveira, I. A. (2006, p.13)
Face aos conflitos marcados
pela intolerância e pela visão etnocêntrica de mundo, os educadores afirmaram
encontrar dificuldades pedagógicas para lidar com o tema, exigindo deles
inovação pedagógica, ousadia metodológica e busca de coerência entre a prática
de educador e os princípios éticos da educação libertadora. [...] O educador
Márcio mencionou enfrentar conflitos em sala ao trabalhar o tema religiosidade:
‘pela minha própria história de vida, pelos meus confiitos pela descrença. Mas
eu tentei, eu tentei o máximo que pude. Eu estava ali com princípios
humanistas’. Ele enfatizou que conflitos emergiram em função de terem os
educandos uma visão etnocêntrica, ou seja, por considerarem a sua religião a
melhor. Eles afirmavam, por exemplo: ‘o meu Deus é melhor’, ‘Sai daí, a minha
religião pode salvar; é melhor’, ‘o teu Deus está morto’. A educadora Lúcia
também afirmou vivenciar conflitos por questões religiosas em sua turma e que,
inclusive, esse fator interferiu no afastamento de alguns alunos das aulas (grifos
do autor).
Diante
da dificuldade de enfocar o tema religião, devido às diversidades de crenças
tanto dos alunos quanto dos professores, é necessário colocar a importância da
intervenção do professor no sentido de que este deve manter uma postura
respeitosa com relação às manifestações dos diferentes credos, mas, além disso,
deve também esclarecer aos educandos a possibilidade de entrar em contato com
os diferentes credos, sem, contudo ridicularizá-los, como fizeram alguns alunos
do estudo abordado.
No
entanto, essa atitude é altamente complexa porque envolve a desmistificação dos
preconceitos dos educandos e dos próprios educadores em relação à temática
abordada. E esse fato é confirmado por Piletti (2001, p.81), quando diz que,
assim como o aluno, o professor não é neutro, sem sentimentos, mas é uma pessoa
que possui simpatias, antipatias, amor, ódio, medo, timidez, etc.
Porém,
o que talvez seja mais perigoso na atitude do professor diante das diversas
crenças dos alunos é o fato de que, se aquele profissional não reconhece - como reconheceram alguns educadores da
pesquisa referida acima - e não procura modificar seus preconceitos a respeito dos
comportamentos religiosos do alunado, a relação entre eles poderá ficar
comprometida, conforme ressalta Andrade (2006, p. 23):
Com base nessas afirmações, é possível entender que é
bastante pertinente que os educadores passem a aprofundar os seus conhecimentos
sobre a temática religiosa, bem como suas implicações na relação com o aluno
que, enquanto ser único, poderá surpreendê-los com seus comportamentos
inusitados.
O
trabalho apresentado mostrou a importância das percepções dos professores em
relação às diferenças religiosas dos alunos, sendo enfatizado o quanto as
concepções e preconceitos docentes interferem na interação entre ambos os
atores do processo de ensino-aprendizagem.
Além
disso, durante a monografia foram expressas algumas posturas dos profissionais
do ensino, as quais, ora demonstravam coerência com os princípios da construção
da cidadania na escola, ora também permitiam a compreensão de que ainda existem
muitas posturas que devem ser reformuladas.
Entre
as representações dos docentes a respeito do assunto – religiões diversas do alunado – foram mencionadas situações que evidenciaram a grande
dificuldade daqueles em lidar com as crenças deste, como: relatos de
sentimentos conflituosos diante dos comportamentos religiosos diferenciados,
além de considerações preconceituosas a respeito do aluno que freqüenta vários
centros espirituais, ou não vai à Igreja com freqüência, sendo estes discentes
considerados como inferiores a ele – educador – e aos demais alunos por
causa dessa postura para com o mundo espiritual.
Por
outro lado, também foram encontrados relatos de atitudes assertivas por parte
de educadores que procuraram utilizar o fenômeno religião como objeto de
estudo, podendo mostrar aos discentes que existe uma grande distinção entre o
conhecimento sobre diferentes credos e a “conversão” a uma religião.
Foi
possível entender, a partir desse trabalho, que a forma como o professor encara
as divergências entre as crenças dos seus alunos interfere significativamente
no relacionamento entre eles, pois, conforme o que foi exposto ao longo dessa
obra, quando há compreensão e aceitação,
obtém-se um clima favorável aos questionamentos sobre as diferentes religiões,
o que contribui para o enriquecimento
cultural de todos os sujeitos
dessa relação. E, por outro lado, quando há manifestação de preconceitos diante
das diferenças, ocorre a marginalização do
aluno.
Apesar
da pequena quantidade de pesquisas encontradas sobre o tema, foi possível
elencar sugestões para a prática do educador diante das diversas crenças dos
alunos, as quais incluem, primordialmente, o reconhecimento e a análise de si
mesmo, enquanto um indivíduo que possui valores, crenças, desejos e outras
características que atuam significativamente na constituição de suas
representações sobre o corpo discente.
Diante
disso, é relevante acrescentar que essas sugestões apontam para a necessidade
de um estudo mais aprofundado a respeito de diferenças religiosas no contexto
escolar, a fim de que outras alternativas possam ser construídas para a melhor
convivência nesse ambiente tão significativo para a constituição do ser humano
atual.
Kézia Stéfani
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